Cultura!

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OBJECTIVOS

Estes textos são uma mera justificação de gosto, dirigida em primeiro lugar aos amigos, e não são crítica de cinema, muito menos de teatro ou arte em geral... Nos últimos tempos são maioritariamente meros comentários que fiz, publicados principalmente no facebook ou no correio electrónico, sempre a pensar em primeiro lugar nos amigos que eventualmente os leiam.
Gostaria muito de re-escrever os textos, aprofundando as opiniões, mas o tempo vai-me faltando...
As minhas estrelas (de 1 a 5), quando as houver, apenas representam o meu gosto em relação à obra em causa, e nunca uma apreciação global da sua qualidade, para a qual não me sinto com competência, além da subjectividade inerente. Gostaria de ver tudo o que vale a pena, mas também não tenho tempo...

sábado, 25 de novembro de 2017

OBRIGADO, INTERVALO GRUPO DE TEATRO



OBRIGADO, INTERVALO !

Quando as representações de "Dom Quixote", o último grande sucesso do INTERVALO GRUPO DE TEATRO, estão a chegar ao fim, queria manifestar a minha gratidão como espectador das belíssimas encenações e representações deste grupo a que assisti ultimamente, mas nunca esquecendo o longo trabalho de qualidade que ele vem fazendo desde os anos 60 do século passado, sempre sob a direcção do grande homem de teatro, encenador e actor, que é o Armando Caldas. 

Entre as quais é justo destacar "Ratos e Homens", "Doze Homens em Fúria", "Sonho de uma Noite de Verão" e "Dom Quixote". 

Não vou referir agora qual o meu favorito, dizer apenas que foram grandes espectáculos, admiravelmente encenados e interpretados. Pela elevadíssima tensão dramática que quase todos eles conseguiram criar num público habituado a ver muito e bom teatro, neste palco e noutros do nosso País, com as melhores companhias que temos e felizmente são bastantes, reitero a ideia de que alguns deles mereciam ser representados noutros palcos, para maiores assistências.

Por iniciativa de um amigo, o programa da representação do "Dom Quixote" foi autografado pelos actores presentes, num dia em que por doença não pude estar presente. Como espectador agradeço com emoção o gesto e será mais um dos autógrafos que tenho (e não são muitos porque só os peço quanto admiro os autores), este até com um especial simbolismo, que muito aprecio, porque é colectivo! E duma companhia em que o colectivo não é palavra vã!

Obrigado Miguel Almeida, Hélder Anacleto, Fernando Tavares Marques, Fernando Dias, João Pinho, João José Castro, Adriana Rocha, Rita Bicho, Miguel Partidário, Pedro Beirão, Dina Santos, Cristina Miranda, Luís Herlander, Pedro Pinto, Dulce Moreira, Fátima Morais, Carlos Paiva e Armando Caldas. (espero não me ter esquecido de ninguém deste magnífico "Dom Quixote"... mas se me esqueci, peço desculpa) 

Sobre os espectáculos citados deixo excertos dos modestos textos que a propósito deles escrevi para informar os amigos.



RATOS E HOMENS, de John Steinbeck

(...) Na história que Steinbeck criou, o final é um libelo, não contra o trabalhador que só quer defender o companheiro até ao fim, mas contra a sociedade que cria condições para que a tragédia possa acontecer. Mas também sabemos como às vezes os mais miseráveis e despolitizados se tornam injustos e cruéis para os seus semelhantes, principalmente contra os que são mais fracos que eles. O pior e o melhor do ser humano vêm ao de cima nas grandes crises. Steinbeck conseguiu fazer-nos sentir isso e esta belíssima adaptação ao teatro ainda mais. Pondo em confronto os sonhos daqueles homens, de um mundo mais justo e melhor para todos e a realidade cruel de exploração e miséria para a grande maioria. Julgo que foi por isso que outro dia, quando fui ver a peça, a tensão dramática subiu a níveis tão raros que a emoção se instalou no palco e na plateia quando o espectáculo terminou. Isso é grande teatro em qualquer parte do mundo!

12 HOMENS EM FÚRIA, de Reginald Rose

(...) É um microcosmos humano que Reginald Rose no fundo cria entre aqueles 12 homens e nenhum de nós, penso, deixará de o sentir, nele se revendo, por bons ou maus motivos. No fundo é nisso que reside a intemporalidade desta magnífica obra e se nos emocionamos, eu diria quase até às lágrimas, é por vermos que desta vez a inteligência e o humanismo derrotam a ignorância, o desespero acéfalo, a violência dos que não têm outro argumento.

Eu só posso sugerir que não falhem mais este grande e belo espectáculo do Intervalo Grupo de Teatro, com uma direcção de actores que temos que reconhecer magnífica, aliás como habitualmente naquela casa.

SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO, de William Shakespeare

(...) Depois de Molière, de Corneille e de outros, chega agora, de novo, uns anos depois, a adaptação do famoso "Um Sonho de uma Noite de Verão" (A Midnight Summer's Dream), de William Shakespeare.
E é excelente, este espectáculo que adapta uma das mais inocentes peças do genial dramaturgo inglês, ou talvez não, em que os maus sentimentos estão praticamente ausentes, tirando uns ciúmes, umas vilanias menores, um pai prepotente e principalmente as confusões que os "deuses" armam para delas tirar proveito... 

Manuel Jerónimo, actor e encenador que já conhecíamos de trabalhos anteriores, magníficos, adaptou o texto e encenou-o. 

O resultado, volto a afirmá-lo, é encantatório, fazendo-nos por vezes sorrir, rir e até rir muito, com as peripécias da acção. 

E tudo acaba em bem, com excepção da peça dentro da peça, com que termina a comédia, tal como no original, e que é por vezes irresistivelmente cómica.

DOM QUIXOTE, de Miguel de Cervantes

(...) O Dom Quixote, de Cervantes, acaba vencido mas a luta dos que sonham com um mundo melhor continuará sempre. Mesmo que alguns de entre nós sejam como Sancho, bons mas crédulos, assustadiços e medrosos, querendo refugiar-se na ideia de que nada pode ser mudado pelos seres humanos, e por isso lhes resta serem interesseiros, só lutando quando nada mais resta a fazer para salvar a pele.

Há nesta dramatização uma dúzia de cenas cheias de força e simbolismo. Entre elas está a que narra o encontro de Dom Quixote com os senhores poderosos, as suas damas e os hipócritas conselheiros e confessores, os representantes religiosos. Desprezam, troçam, desconsideram o cavaleiro andante, Dom Quixote, e o seu escudeiro, Sancho, com a arrogância dos convencidos da sua importância e impunidade. Quem não passou já por isso?

Um dia, porém, "chegará o dia de todas as surpresas".

Lisboa, 26-Out-2017

Egas

















sexta-feira, 24 de novembro de 2017

LITERATURA E CINEMA - II - THE BIG SLEEP

Literatura - À BEIRA DO ABISMO (THE BIG SLEEP) (1939), de Raymond Chandler
Cinema - idem, de Howard Hawks, argumento de William Faulkner (1946)

O LIVRO

"À Beira do Abismo" (The Big Sleep), uma obra-prima do género policial, e não só, editada em 1939.

Um enorme escritor, Raymond Chandler, um dos meus preferidos, qualquer que seja o género que tenha utilizado. O seu herói, Philip Marlowe, é um detective privado, duro, romântico e com uma ética à prova de bala.
A acção do romance decorre no seio da grande burguesia, que nasceu e cresceu com o petróleo e que se afunda num mundo de luxo, inutilidade, desvario e corrupção, com as suas ligações ao mundo do crime. 
O discurso do chefe do Departamento de Pessoas Desaparecidas de L.A., o capitão Gregory, um polícia sem ilusões, reflecte também a amargura do escritor perante a realidade de um país, os EUA, que cerca de 80 anos depois pouco mudou:

"- Sou um polícia, um simples e banal polícia. Razoavelmente honesto; tanto quanto se pode ser num mundo onde a honestidade passou de moda. Foi precisamente por isso que lhe pedi que passasse por cá hoje. Como polícia que sou, gostaria de ver a lei vencer. Gostaria de ver patifes como Eddie Mars estragarem as unhas na pedreira de Folson ao lado dos pequenos marginais que cresceram em bairros miseráveis, apanhados mal puseram o pé em falso pela primeira vez e a quem nunca mais se deu uma oportunidade. Era isso que eu gostaria de ver. Tanto eu como você já vivemos o suficiente para saber que isso nunca vai acontecer. Pelo menos não nesta cidade, nem nenhuma outra com metade do tamanho de Los Angeles em qualquer ponto deste grande e belo país. Pura e simplesmente não o governamos assim." (pág 181)

Marlowe movimenta-se entre várias mulheres que surgem ao longo do romance, às vezes atraído pela beleza de algumas ou pelo que pensa ver nelas.
A obra termina com uma frase inesquecível:

"No caminho para casa parei num bar e bebi dois copos de whisky. Não me ajudaram em nada. Só me fizeram pensar na Cabeleira de Prata, e nunca mais a vi."

Anos mais tarde outro grande autor (1), seduzido pela frase, continuou a história num outro belíssimo romance, revisitação perfeita do espírito de Chandler. 
(1)- Robert B.Parker, em "A Morte Veste de Seda"




O FILME

Com adaptação de outro gigante da literatura, William Faulkner e realização de Howard Hawks, foi terminado em 1946.
Longe da densidade, complexidade e referências politicas e sociais da obra-prima de Chandler, o filme é no entanto uma referência do chamado género policial, pela magnífica realização de um mestre como Hawks e as brilhantes interpretações de Humphrey Bogart e Laureen Bacall, companheiros na vida real que só a morte prematura de Bogart separou.
Parece evidente, para quem conheça o romance, não sentir no filme a implacável mão da censura daquela época nos EUA. As cenas e até as personagens da obra literária mais ligadas a uma crítica política ou sexual foram simplesmente cortadas ou eliminadas. Não esqueçamos que estávamos no pós-guerra, num dos períodos de política mais fascizante nos USA, com o período maccarthista em ascensão e a criação do FBI de Edgar Hoover, com a paranóia das suas perseguições às organizações dos trabalhadores (sindicatos), ao partido comunista e aos intelectuais de esquerda. Obviamente isto tinha um fundo claramente político pois reflectia o crescente poder do grande capital, que pretendia rapidamente dominar a luta dos trabalhadores.

O grande interesse do filme reside por isso praticamente na linguagem e na magnífica fotografia a preto e branco e nas grandes interpretações dos principais protagonistas, de quem aliás a maioria dos secundários não destoa.  O argumento adaptado, embora com a mão do grande Faulkner, está muito longe da densidade do romance de Chandler.









LITERATURA E CINEMA - I - THE MALTESE FALCON

THE MALTESE FALCON (O FALCÃO DE MALTA)


Dashiell Hammett e John Huston: fizeram obras-primas !
Acabei de reler e ver (em casa). São ambos muito bons, o livro (1930) e o filme (1941), embora seja sempre muito difícil passar para o cinema tudo o que está num grande romance e provavelmente a censura, em especial nos USA, a dos ditos bons costumes, deve te-lo proibido... 
Com Humphrey Bogart e Mary Astor.

FILME NEGRO
Malthese Falcon (The) – Relíquia Macabra, de John Huston (USA, 1941) ***** (5)

Uma pequena nota de 2005:

"Foi a estreia em grande estilo de John Huston atrás das câmaras. E mais de 60 anos passados permanece como uma obra que nos continua a fascinar, exemplo perfeito do denominado filme negro (film noir, como lhe chamaram). Com Humphrey Bogart (Sam Spade), Mary Astor (Brigid O’Shaughnessy) e Peter Lorre (Joel Cairo) nos principais papéis, na história trágica de um bando de aventureiros na busca vã de uma desaparecida estatueta, feita de ouro e diamantes.
Filmada praticamente em interiores, a obra deve muito ao argumento do grande romancista norte-americano Dashiel Hammett (1894-1961). E a talhe de foice refiram-se alguns dos principais nomes além de Dashiell Hammett, dessa vertente do romance norte-americano – a do romance negro, que se filia no social para desenvolver as suas por vezes complexas intrigas. Raymond Chandler (1888-1959), Horace Mccoy (1897-1955) e, mais recente,  Ross Macdonald (1915-1983). Gostamos muito de todos eles. Para o iniciado não será de mais lembrar “The Long Goodbye” (O Imenso Adeus), de Chandler, com o seu “herói”, o detective privado Philip Marlowe, ou “No Pockets in a Shroud” (O Pão da Mentira), de Horace McCoy, protagonizado pelo jornalista Mike Dolan, ou “The Sleeping Beauty” (A Bela Adormecida), de Ross Macdonald, cujo principal personagem é o detective privado Lew Archer, além do próprio “The Maltese Falcon”, de Hammett. E o cinema não os esqueceu, com várias adaptações de algumas das suas obras ou sobre eles próprios, como Wim Wenders e o seu magnífico “Hammett”.
Sobre o cineasta (John Huston) e o seu protagonista (Humphrey Bogart), duas figuras maiores da sétima arte, todos os cinéfilos lhes conhecem as carreiras ímpares. Convém lembrar, para os mais novos, que ainda o não tenham visto, que os dois se voltaram a cruzar pelo menos em mais meia dúzia de vezes, uma das quais num outro grande momento de cinema, o famoso “The African Queen” (A Rainha Africana), com Katherine Hepburn no papel da irmã do missionário que com Bogart, um aventureiro que se redime, irão atacar o navio alemão, na Guerra de 14-18. Filme de culto a que o tempo não consegue diminuir a aura. Muitos anos mais tarde Clint Eastwood haveria de relembrá-lo, num dos seus melhores filmes, em minha opinião, “White Hunter, Black Heart” (Caçador Branco, Coração Negro), uma inolvidável homenagem a Huston. *****

Egas Branco, visto na Cinemateca Portuguesa, em 9fev05 "

A seguir vai ser outra obra-prima do romance, The Big Sleep (À Beira do Abismo), de Raymond Chandler e adaptada por Howard Hawks. Primeiro leio e depois vejo. Depois vou passar a outros géneros.













sábado, 14 de outubro de 2017

38ª SEMANA CULTURAL DO INTERVALO GRUPO DE TEATRO (PARTE I)

PARTE I

Depois de um longo hiato devido a problemas de saúde, que não estão todavia resolvidos, regresso por isso ainda a meio gás...


De 2ª feira a domingo, na semana de 9 a 15 de Outubro, mais uma das magníficas Semanas Culturais do Intervalo.

Os homenageados deste ano serão, por ordem: o escritor e poeta (e também jogral) Domingos Lobo; postumamente um dos nossos maiores actores, Rogério Paulo; o cantor Francisco Fanhais; o cantor Miguel Ângelo; o conjunto Os Navegantes, com Carlos Alberto Moniz; o jornalista João Paulo Guerra, actual provedor do ouvinte na RDP. No domingo, para fechar a semana, será a vez da peça DOM QUIXOTE, magnífica criação do Intervalo, numa encenação de Armando Caldas, director da companhia.

Mas lembremos que este grupo de teatro nos deu nos últimos anos alguns dos espectáculos que mais nos agradaram entre 2014 e 2017: nomeadamente RATOS E HOMENS, adaptação da famosa obra de John Steinbeck; 12 HOMENS EM FÚRIA, de Reginald Rose, a belíssima peça que o cinema e a TV já adaptaram com grande sucesso; e DOM QUIXOTE, baseado na obra-prima homónima de Miguel de Cervantes




1ºDIA

A Semana Cultural do Intervalo, já na sua 38ª edição, começou da melhor maneira.

Com um Auditório Municipal Lourdes Norberto, em Linda-a-Velha, a transbordar para a homenagem a 30 anos de obras editadas de JOSÉ DOMINGOS LOBO, multifacetada personalidade, principalmente como escritor, poeta, ensaísta, actor, jogral e autarca, de quem procuramos ler sempre as magníficas crónicas literárias no Avante! E admiramos a parte da obra que conhecemos. Ele é militante do PCP.

Fernando Dacosta fez, com o brilho habitual, o elogio do escritor, a que Domingo Lobo respondeu com um belíssimo texto, descrevendo o seu percurso de vida.

Com Manuel Diogo, com quem forma um conhecido grupo de jograis, disseram um belo poema da autoria deste poeta e escritor em homenagem ao director do Intervalo, Armando Caldas.

A sessão cultural de ontem terminou com um concerto de Camané, cantor que pela qualidade da sua voz e do seu repertório poderíamos ouvir horas a fio sem nos cansarmos. Muito em especial numa sala como esta, em que artistas e público estão muito perto, estabelecendo-se por vezes uma comunhão rara entre ambos. Admirável! 

Camané é sem dúvida um dos expoentes da nossa Cultura. Ontem demonstrou-o uma vez mais, iniciando à capella a sua actuação, momento de excepcional qualidade. Depois o concerto prosseguiu com Camané e os magníficos músicos que o acompanharam.




2ºDIA

A 38ª Semana Cultural do Intervalo prosseguiu com a homenagem póstuma a um dos maiores actores que o Teatro Português, e também a televisão e o cinema, tiveram: ROGÉRIO PAULO, que para além do grande Artista (actor, encenador, professor) foi também um resistente ao fascismo, militante comunista, que pela defesa da Liberdade para o povo português arriscou a vida e foi implacavelmente perseguido pelo fascismo, impedido de trabalhar durante muitos anos na rádio (emissora nacional) e televisão (rtp). Nada disso porém o fez desistir e teve uma decisiva participação numa das maiores importantes fugas das prisões do fascismo, a de Peniche, em 3 de Janeiro de 1960, em que Álvaro Cunhal foi o mais destacado preso participante nessa fuga.

É esse grande actor que hoje o Intervalo homenageia, lembrando-se que Rogério Paulo fez parte, com Armando Caldas, de uma das mais importantes companhias do Teatro Português, pela qualidade mas também pela ousadia de fazer frente à censura, que foi o Teatro Moderno de Lisboa.

Problemas de saúde impedem-me hoje a presença mas, cá longe, vou lembrar Rogério Paulo e aqueles que com ele se bateram por um País melhor e mais culto, porque as duas coisas são indissociáveis.

O escritor e homem empenhado na cultura e vida cívica do nosso País, cujas obras tanto apreciamos, Modesto Navarro falará sobre Rogério Paulo. Não sei se a nossa inesquecível Carmen Dolores, quase centenária, poderá estar presente para ler a sua mensagem sobre o amigo com quem contracenou. Mas se não for possível a sua presença ouvir-se-ão as suas palavras ditas por alguém. 
Um concerto de outro Artista de que muito gostamos, Pedro Jóia, encerrará a sessão. Que pena não podermos assistir!




3ºDIA

No prosseguimento da 38ª SEMANA CULTURAL do INTERVALO GRUPO DE TEATRO, a homenagem ao FRANCISCO FANHAIS, que começámos por conhecer por Padre Fanhais, e fazia parte dos chamados "Cantores de Intervenção", que tão importantes foram nos anos plúmbeos e castrantes do fascismo salazarista - Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Sérgio Godinho, Manuel Freire, José Mário Branco, José Barata Moura, José Jorge Letria, Fausto ... e, embora não sendo considerados como tal, Carlos do Carmo, Tonicha, Fernando Tordo, entre outros, por cantarem e muito bem os belíssimos poemas de José Carlos Ary dos Santos.

Fanhais estará sempre neste conjunto de cantores de que gostamos muito e continuamos a admirar pela sua cidadania activa - por exemplo como actual presidente da Associação José Afonso (AJA).

Participará também, de outra geração pós-25 de Abril, João Afonso, o grande cantor de O Carteiro de Bicicleta, entre outros belíssimos trabalhos, de quem também gostamos muito


Muita pena que as condições físicas actuais não me permitam estar hoje presente. Talvez, se melhorar, mais para o fim de semana...







Continua...

sábado, 19 de agosto de 2017

VICEROY'S HOUSE (Adeus Índia), de Gurinder Chada



VICEROY'S HOUSE (Adeus Índia) 

A não perder o belíssimo filme da cineasta, nascida na comunidade indiana do Quénia (1960), Gurinder Chada, VICEROY'S HOUSE (ADEUS ÍNDIA). 

É que a obra passa-se nos meses que antecederam a independência daquele grande país asiático que os ingleses colonizaram durante 3 séculos mas que, antes de serem obrigados a sair, no final dos anos 40 do século XX, pela revolta e luta do povo indiano, manobraram, fomentando ódios religiosos entre hindus, muçulmanos e sikhs e protegendo os políticos que eram mais favoráveis à divisão que pretendiam (o muçulmano Jinnah, que seria o primeiro presidente do Paquistão), conseguindo provocar a fragmentação da Índia, para servir os interesses do capitalismo e do imperialismo, principalmente para não deixar a Índia libertada cair para o lado do socialismo, utilizando também a ingenuidade política do último vice-rei, Lord Mountbatten, escolhido para o lugar por isso mesmo, ainda que contasse com o apoio da sua mulher, humanista e mais inteligente. Mas tudo isso eles devem ter previsto... 

Dividir para reinar, foi sempre o lema dos colonialistas, qualquer que fosse o império colonial em causa, o britânico, o português ou outro qualquer.

E por trás de mais este crime contra os povos está a sinistra figura do político ultraconservador Churchill, que o conflito mundial de 1939-45 havia catapultado para o poder na Grã-Bretanha.
Ele causou, segundo a história, uma das maiores, senão a maior migração da história da Humanidade, com muitos milhares de vítimas. Só provavelmente o bárbaro ataque e invasão militar pelo imperialismo norte-americano e europeu ao mundo árabe, neste início do século XXI, terá causado maior número de deslocados. Crimes contra a Humanidade que a História não deixará esquecer.
 

Gurinder Chada, a realizadora, neta de gente vítima dos turbulentos tempos que os ingleses criaram, fez uma obra que emociona porque conseguiu transmitir-nos também, através de meia dúzia de personagens, os dramas humanos que acontecem em tais situações. 

Fez-me lembrar um outro filme, que retrata outro dos crimes do imperialismo contra a Humanidade, bem mais recente, que foi desmembramento da Jugoslávia, entre outros no Leste Europeu, em que o imperialismo também fomentou nacionalismos e divisões religiosas, utilizando grupos neo-nazis sempre que necessário. Refiro-me à obra-prima de Emir Kusturica, "A Vida é um Milagre". Em ambos os filmes, um homem e uma mulher são separados pela guerra, estúpida e irracional, entre as comunidades a que pertencem. 


É talvez por tudo isto que o filme passa quase ignorado do grande público, por ser desvalorizado, até pela omissão, pela crítica dominante nos media portugueses. E no entanto o filme é muito bom! Não fora um Amigo ter-nos chamado, no Facebook, a atenção para a obra e ela ter-nos-ia provavelmente passado despercebida.

Só duas notas finais: 
1- Prefiro o título original, porque o da versão portuguesa apenas traduz o ponto de vista dos colonialistas britânicos, o que não é todo o objectivo do filme
2-  Até nas legendas se nota a questão ideológica da classe dominante: ser de left (nos diálogos originais) é traduzido por esquerdista... Não! Não é ignorância... 

Na segunda e terceira foto está a realizadora do filme, colaboradora habitual do BFI - British Film Institute, equivalente à nossa Cinemateca e que aliás participa na produção da obra. A lista dos actores, que são quase todos magníficos, mesmo os que representam figuras históricas que muito admiramos - Nehru e Gandhi por exemplo, e dos demais técnicos, pode ser encontrada com facilidade na Net (IMDB, por exemplo).

(texto baseado no publicado no Facebook, em 18-Ago-2017)







ERÊNDIRA! SIM AVÓ... de A BARRACA, encenado por RITA LELLO


ERÊNDIRA, SIM AVÓ...

Bela e tocante encenação de Rita Lello, para uma companhia, que é sua também, A Barraca, de cujos trabalhos em geral gostamos tanto, porque se aproxima do tipo de teatro popular (sem ser populista, nas palavras dos seus próprios responsáveis) que mais me diz.

Da encenadora e também actriz que muito apreciamos (nos últimos tempos por exemplo em Clarabóia, aliás um espectáculo sob todos os títulos admirável), relembro sempre um dos seus trabalhos, em 2009, que para mim é inesquecível: A Bicicleta de Faulkner, encenando a peça de Heather McDonald.
Algumas horas depois de ver este espectáculo de A Barraca, fui reler o conto em que ele se baseia, texto mais ou menos longo de Gabriel Garcia Marquez: "A incrível triste história da cândida Erêndira e da sua avó desalmada",  e que é outra maravilha desse génio da literatura universal, de cujas obras tanto gostamos, dos romances e dos contos. 

Erêndira, visto no palco e lido, fez-me pensar em muita coisa, desde a América Latina, quase toda dominada pelo imperialismo ianque, aos seus povos, à sua cultura, à luta milenar, ao genocídio índio, etc, etc.  

Pena que tão depressa não seja possível rever esta magnífica adaptação ao teatro. Julgo que apenas no final do ano, se compreendi bem. Se estiver por cá, talvez me arrisque a uma noitada, se houver lugar.






quarta-feira, 19 de julho de 2017

TREBLINKA, de Sérgio Tréfaut



TREBLINKA, de Sérgio Tréfaut

Ninguém deveria deixar de ver esta obra agora estreada em sala (Finalmente!!! Mas porquê só agora e em tempo de férias?!), já multipremiada, em Portugal (no Festival Indie 2016) e no estrangeiro.

Um documento importante sobre o nazifascismo, os seus campos de extermínio e o assassinato de milhões de pessoas, através dos relatos de alguns dos seus poucos sobreviventes.
Um dos testemunhos é de Marceline Loridan-Ivens, cineasta e escritora, companheira de Joris Ivens, famoso cineasta, antifascista e acompanhante empenhado de algumas das revoluções socialistas do Século XX. Curiosamente é lhe atribuída nesta obra uma frase que é a mais polémica do filme uma vez que, fora do contexto e admitindo que terá sido bem traduzida, poderá prestar-se a grandes equívocos: refere a ideologia e a religião, como se fossem males.

Ao contrário, penso, o homem como o animal mais inteligente que conhecemos tem no entanto na Ideologia o melhor (ou o pior) de si, porque as ideologias podem ser a favor do Homem ou contra ele. Mas sem elas, as que defendem o progresso e a justiça, o Homem não teria futuro.
Para nós, portugueses, que sobrevivemos à longa noite fascista, de Salazar e seus acólitos e com a Igreja Católica como apoiante, este filme tem um particular significado. É que essa gente que oprimiu o nosso País durante quase meio século, foi apoiante deste nazismo, fonte dos terríveis e quase inimagináveis horrores que a obra descreve pelo relato de alguns que lhes sobreviveram. 

Neste início do Século XXI é inquietante todavia verificar que as ideologias fascistas e nazis renasceram dos escombros e já surgem no poder no leste europeu, nomeadamente na Ucrânia! E até na própria França crescem, ainda que camufladas, principalmente nas frentes fascistas da marine le pen. E a extrema-direita chegou ao poder nos EUA (trump)... 

Os que amam a Paz e o Progresso para os Povos não podem dormir descansados. A luta vai ter que continuar. E o papel da Ideologia assume, como sempre, particular importância.



A nossa grande actriz Isabel Ruth, na imagem, dá corpo e rosto às sobreviventes do holocausto nazi em que pereceram milhões de pessoas, sistemáticamente eliminadas, por ódio racial (os judeus, principalmente), por perseguição política (os comunistas, em primeiro lugar)! 

Nos tempos que correm é para nós muito doloroso ver como alguns dos descendentes das muitas vítimas de ontem (as de ascendência judaica, como muitos de nós)  se tornam em algozes hoje (do mártir povo palestiniano, vítima da ocupação do seu país e de um novo genocídio cometido por sucessivos governos israelitas). E quanto se levantam vozes a protestar e a propor uma solução de Paz para a Palestina, são brutalmente eliminadas, como o Presidente Isaac Rabin, assassinado por um militante sionista de extrema direita, quando decorriam encontros para a Paz, entre representantes dos dois povos.


Na imagem algumas das obras que é indispensável conhecer, como as que falam do apoio do fascista salazar ao nazi hitler e seus aliados, com envio de matérias primas e géneros, roubadas ao povo português e de como foi o governo fascista português recompensado pelos nazis, com a entrega de parte do ouro retirado às vítimas assassinadas nos fornos crematórios nazis. TREBLINKA era um deles, na Polónia ocupada.


segunda-feira, 17 de julho de 2017

34º FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA



NOTAS DE UM MUITO MODESTO ESPECTADOR DE FESTIVAL

Depois de GOLEM - espectáculo audio-visual, com actores e músicos reais, muito interessante, pertinente nota de alarme sobre os efeitos das modernas tecnologias na vida dos humanos, a merecer comentário e reflexão, 



veio o VANGELO (Evangelho), de Pippo Delbono - muito pessoal, como de resto toda a sua obra, muito discutível por vezes, mas o que mais apreciamos nele e nos faz simpatizar com o seu autor, é o brado de revolta que ele transmite contra o papel negativo das religiões nas discriminações sociais, no racismo em particular, desde as cruzadas, passando pela inquisição (ver a cena quase final dos jurados ou juízes encapuçados, que também lembra o ku-klux-klan (que são religiosos, também)) e pelos nazi-fascismos (também católicos). 

Delbono não se esqueceu de referir a questão actual e fundamental dos milhões de refugiados das guerras que o imperialismo tem desencadeado já no século XXI, milhões de seres humanos que fogem dos seus países que foram e estão a ser atacados, invadidos e fortemente destruídos pelas forças imperialistas da NATO e da UE, e que os países das forças invasoras desprezam e não querem receber, expulsando-os ou deixando-os perecer. Sempre com políticos religiosos, em geral católicos - marine le pen, trump, etc, à frente dos mais radicais contra o apoio aos refugiados.



Mas HEDDA GABLER, de Ibsen, encenado pela actriz e encenadora norueguesa, Juni Dahr, espectáculo de honra vindo do ano passado, admiravelmente encenado e interpretado, continua bem no topo das preferências (minhas, obviamente).




E ainda no festival deste ano não esquecer, dentro das Artes de Palco, o magnífico "A PERNA ESQUERDA DE TCHAIKOVSKI", misto de dança e teatro. 




Mas ainda irei à procura de ver mais qualquer coisa que me interesse, que pode ser um espectáculo muito simples mas que contenha aquela às vezes indefinível magia que tanto nos faz gostar do teatro, mas que às vezes não é fácil de encontrar.


(Texto baseado em minha nota de facebook, mas tenciono escrever um pouco mais sobre GOLEM e VANGELO)

ADENDA sobre VANGELO, de Pippo Delbono

Em resposta a um comentário de um amigo:


"Agora julgo ter percebido melhor a tua opinião... posso rir? Mas já que me perguntas: para mim as religiões, ou melhor, a católica, é de facto acusada (neste Vangelo) de um sem número de crimes, o que os católicos não devem apreciar (mas não os cometeu?). Nisso estou de acordo com o autor. 
O que achei acima de tudo discutível é que Delbono nunca se aproximou de uma resposta progressista, que não é obviamente um Jesus Cristo Superstar, por muito que eu admire o homem bom e rebelde que julgo ter sido, como o descreveu aliás o Pier Paolo Pasolini (também citado por Pippo Delbono), num dos seus mais belos filmes, esse outro Vangelo mas segundo Mateus. 
Lamento também que no final ele tenha posto a figura da Mãe, num leito de hospital, no fim da vida portanto, parecendo-me a mim uma representação do Buda, religião que Delbono seguiu e julgo que continua, mas cujos representantes máximos (Dalai Lama) também deixam muito a desejar... Todavia pareceu-me a obra, com todas as suas limitações, e ambiguidade, um discurso sincero de alguém revoltado e até ferido com o comportamento das igrejas, nomeadamente a católica. Mas não será esta a mais culpada de todas? 
São quase comoventes os momentos em que leva, fraternalmente, os actores que lhe são muito caros e o têm acompanhado ao longo da carreira- Bobó e o que representa Cristo, num símbolo óbvio daqueles que a sociedade burguesa despreza e até quer destruir se puder (no fascismo). Por agora fico por aqui mas prometo escrever o texto, talvez no blogue para quem quiser ler... Abração