Cultura!

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OBJECTIVOS

Estes textos são uma mera justificação de gosto, dirigida em primeiro lugar aos amigos, e não são crítica de cinema, muito menos de teatro ou arte em geral... Nos últimos tempos são maioritariamente meros comentários que fiz, publicados principalmente no facebook ou no correio electrónico, sempre a pensar em primeiro lugar nos amigos que eventualmente os leiam.
Gostaria muito de re-escrever os textos, aprofundando as opiniões, mas o tempo vai-me faltando...
As minhas estrelas (de 1 a 5), quando as houver, apenas representam o meu gosto em relação à obra em causa, e nunca uma apreciação global da sua qualidade, para a qual não me sinto com competência, além da subjectividade inerente. Gostaria de ver tudo o que vale a pena, mas também não tenho tempo...

sexta-feira, 24 de março de 2017

AQUARIUS, de Kleber Mendonça Filho



AQUARIUS, de Kleber Mendonça Filho

Amigos atentos à Cultura não percam um magnífico filme em exibição, AQUARIUS, do cineasta brasileiro KLEBER MENDONÇA FILHO, com a nossa inesquecível grande actriz SÓNIA BRAGA, aqui mais uma vez soberba!

Este ano ainda não vi melhor! Obra multipremiada em todo o mundo. E se os diálogos que, em português português, são às vezes difíceis de entender na íntegra aqui, em português brasileiro, percebem-se muito bem. 

AQUARIUS é uma obra magnífica e não é certamente por acaso que lemos no genérico final, na sua produção, grandes nomes do Cinema, também do brasileiro, como Carlos Diegues e Walter Salles.

Esta é uma obra claramente empenhada politicamente, na medida em que não esconde o estado da sociedade actual nos países mais desenvolvidos, no Brasil também, com a chegada ao poder de uma juventude, oriunda em geral da grande burguesia, preparada para servir o grande capitalismo sem escrúpulos sociais, éticos e humanistas. Em parte responsável pelo descalabro financeiro que assola novamente o sistema capitalista, colocando em grandes dificuldades a economia mundial dele dependente e fazendo sair dos ovos as serpentes do fascismo, para serem utilizadas pelo grande capital como elementos de violência e repressão sobre os povos que se revoltam.

Muitos desses jovens quadros do capitalismo vão estudar para os EUA e/ou frequentam os "MBA's" e afins, famigerados cursilhos, também responsáveis pela formação desses novos monstros de colarinho branco, cheios de risinhos e mesuras mas que não recuam diante de nada para atingir os seus fins pessoais e os objectivos que os grandes patrões determinam. 

Os últimos anos no nosso País, até Dezembro de 2015 com um governo de extrema-direita, entretanto afastado pelo voto popular, que os partidos à sua esquerda souberam interpretar por proposta do partido comunista que possibilitou a formação de um governo mais democrático, mostraram ao nosso povo, e da maneira mais cruel, como essa gente de direita e extrema-direita actua, eliminando brutalmente, quando chega ao poder, os direitos dos trabalhadores e das classes populares para favorecer o grande capital e os mais ricos.

Em AQUARIUS, a personagem principal é Clara (Sónia Braga), uma jornalista e escritora que ainda vive no apartamento onde nasceu e viveu toda a sua vida, com pais, irmãos, marido, filhos, atravessada por momentos felizes e também trágicos, como a sua doença (cancro) e depois a morte do marido. 

Aquarius foi um grande edifício, cheio de vida, mas agora Clara é a sua última habitante, visto que todos os outros foram sendo aliciados e persuadidos a sair, com promessas que não chegaram a ser cumpridas, por uma construtora com planos para o edifício, que os novos donos querem transformar num condomínio de luxo. Para isso vão tentar tudo para que Clara desista dali viver. Mas Clara é uma resistente, como sempre foi, também nos tempos da ditadura fascista dos militares nos anos 60 e 70. E faz de novo frente ao inimigo.

No papel de Clara está uma grande actriz, Sónia Braga, que nos encantou há muitos anos com o seu desempenho em Gabriela, Cravo e Canela, numa das grandes personagens femininas de Jorge Amado (Mariana, Gabriela, Tieta, e muitas mais). Sónia, volta agora a mais uma interpretação sublime, a da lutadora Clara. 

A selecção e direcção de actores são magníficas também, com uma nota especial para um novo rosto que logo nos seduz, Barbara Colen, como Clara muitos anos antes (anos 80). Tal como a escolha da música que acompanha a obra, relembrando grandes nomes da música brasileira, de Villa-Lobos a Elis Regina, Maria Bethânia, entre outros. É um filme inteligente e culto que não esquece referências ao grande cinema - Kubrick.

As imagens das orgias da grande burguesia, as "festas", numa grande cidade como o Recife, local de acção da obra, não chegam a chocar porque são apenas entrevistas.

Por estas razões a obra tem sido multipremiada internacionalmente: 21 nomeações e 18 prémios em grandes festivais! Aplaudida pelo público e por grande parte da crítica em Cannes, onde realizador e actores, na cerimónia de entrega dos prémios, denunciaram o golpe que a direita, utilizando a sua maioria no parlamento e senado, executou friamente no Brasil, com o apoio norte-americano e dos media, estes, lá tal como cá, nas mãos do grande capital, afastando a Presidente eleita Dilma Roussef e colocando no poder um político desconhecido, menor e corrupto, Temer, que fazia parte do seu governo, como acontece em geral nestes golpes.

NÃO PERCAM!





segunda-feira, 20 de março de 2017

O HOMEM DA CÂMARA DE FILMAR, de Dziga Vertov (URSS)




OBRAS-PRIMAS DA SÉTIMA ARTE (continuação)

No ano em que se comemora o centenário (1917-2017) da mais bela das revoluções da história da Humanidade, a Revolução de Outubro, falamos de novo das grandes obras das primeiras décadas da história da URSS, período dos mais fecundos sob o ponto de vista de inovação das artes, nomeadamente do Cinema.
Relembremos a obra-prima de Dziga Vertov e seus colaboradores.








O Homem da Câmara de Filmar (Celovek s Kinoapparatom) (Человек с киноаппаратом) (URSS-1929), de Dziga Vertov (1h20') 


O seu autor, Dziga Vertov (Denis Arkadievitch Kaufman - Bialystok, Império Russo (hoje Polónia) 2-Jan-1896 - Moscovo, URSS, 12-Fev-1954) , juntamente a sua companheira, Yelizaveta Svilova (Moscovo, 5-Set-1900 - 11-Nov-1975) que editou a obra e o seu irmão, Mikhail Kaufman (Bialystok, 5-Set-1897 - Moscovo, 11-Mar-1980), que a interpretou como o homem da câmara de filmar, publicaram o manifesto "Cinema-Olho" ou Cinema-Verdade", de que este filme é um primeiro, brilhante e inesquecível resultado.

Em 2012, a famosa revista Sight and Sound, publicada pela cinemateca britânica (BFI), no seu inquérito, a cada década desde os anos 50, aos principais críticos de cinema por todo o mundo para escolherem os Melhores Filmes de Sempre, coloca esta obra de Dziga Vertov como a 8ª mais citada entre as 250 que a revista inclui na sua lista, onde estão obviamente quase todos os melhores filmes feitos desde o nascimento da 7ª Arte.

Ao revê-la agora, mais uma vez, continua a impressionarmo-nos muito pela inventiva dos planos e das técnicas cinematográficas utilizadas, isto apesar dos avanços tecnológicos nas câmaras, no quase um século decorrido até hoje.

Mas é o olhar que continua a tudo, ou quase tudo, determinar e obviamente a montagem posterior do material filmado e que transformam este filme num fluxo admirável de imagens sobre a vida dos trabalhadores na sociedade soviética, poucos anos depois da vitória da Revolução Socialista de Outubro (7-Nov-1917, no nosso calendário), não esquecendo as imagens do tempo de descanso, pago, conquista também da Revolução, que os trabalhadores na sociedade capitalista só haveriam de conquistar em 1936, no governo da Frente Popular, em França. 

Há quem lhe chame hino ao progresso, ao Homem do futuro e eu concordo, com as imagens das fábricas e dos trabalhadores mas também do ritmo frenético da vida numa grande cidade.

O homem da câmara de filmar (Mikhail Kaufman, o cineasta irmão de Dziga Vertov) surge-nos sempre como mais um trabalhador, como os operários das fábricas ou das minas ou as operadoras das comunicações, que tem como tarefa filmar o que se passa, e não como alguém que apenas observa. 

Há um aspecto que se salienta muito das imagens desta obra-prima, aliás como da maioria dos grandes filmes soviéticos dessa época do início da construção do Socialismo, que é a da emancipação da Mulher, que se pretende igual ao Homem, em direitos, depois da Revolução.

Tudo isto sem um carácter panfletário. São antes as imagens que nos mostram a realidade.

Uma obra-prima absoluta do documentário e da 7ª Arte.








JERUSALÉM, de Gonçalo M.Tavares - Uma Leitura



RELEITURAS

Sobre JERUSALÉM, de Gonçalo M. Tavares
(Porque a sua linguagem, em minha opinião, seria facilmente transformável em imagens)

Reli essa obra-prima do desespero (em minha opinião) que é o JERUSALÉM. 

Há obras que só consigo ler com uma enorme angústia, não porque não estejam admiravelmente escritas mas pelo que descrevem. No cinema é possível fechar os olhos quando o desespero ou a angústia dos personagens passam do ecrã para dentro de nós. Na literatura, só se saltarmos linhas, ou páginas ( e capítulos), para não ler... 

Evito em geral esse tipo de obras, só as lendo (ou vendo) quando o nível da escrita ou do tratamento do tema o justifique, como é o caso de JERUSALÉM. 

Mas não deixam de me incomodar... Porque continuo a lutar para viver num mundo diferente.

Embora admiravelmente escrito (lê-se num ápice) é uma obra de uma escuridão total. Não há um mínimo de humor, de algo que não seja desgosto, infelicidade, desespero. Não é recomendável a espíritos inquietos, julgo eu. Há quem diga (na contracapa) que é kafkiano, que lembra os quadros de Kiefer sobre o nazismo, que segue na linha do expressionismo alemão, de Murnau a Lang, no período que leva ao poder os nazis na Alemanha. 

Confesso que esta obra é de uma leitura deprimente, embora goste muito do estilo do escritor, principalmente noutras obras, menos desesperadas. Nesse aspecto é extraordinariamente bem conseguido. E teria sido ainda mais difícil de ler se ainda vivêssemos sob os fascizantes governos de cavaco, passos e portas/cristas, às vezes com os seus afloramentos neo-nazis, deixados escapar no meio dos discursos, das propostas e até na aplicação das leis por eles aprovadas, como, por exemplo, as declarações sobre a "peste grisalha" de um deputado do psd ou as frequentes referências contra os apoios sociais aos mais desfavorecidos, que enquanto poder reduziram a níveis mínimos ou a famigerada lei das rendas, que veio a provocar muitos despejos de muitos dos mais idosos, dos mais vulneráveis e dos mais desfavorecidos dos inquilinos, com o favorecimento dos grandes senhorios.

Aos que não são demasiado impressionáveis e são sensíveis à grande literatura, recomendo JERUSALÉM, como aliás o resto da obra, a que conheço, do escritor. 

Porque não queremos que o mundo volte a ser assim! 

Nem concordo com as teorias dos Busbecks, avô e pai, sobre o terror, sobre o horror, cujas razões primeiras são quase sempre, como se sabe, as crises económicas do sistema que os mais poderosos fazem recair sobre os explorados e oprimidos, recorrendo à repressão, à violência, até ao genocídio, para manter o seu domínio e os seus privilégios. Essa ditadura dos mais poderosos degenera no fascismo e no nazismo.


quinta-feira, 16 de março de 2017

VELIKII GRAJDANINE (Um Grande Cidadão) (1ªparte – 1937, 2ªparte – 1939), de Friederich Ermler (URSS)

No ano em que se comemora por todo o mundo o centenário (1917-2017) da  mais bela revolução da história da Humanidade, a Revolução de Outubro, que colocou no poder por muitas décadas os explorados e oprimidos, relembro outra obra-prima da Sétima Arte produzida e realizada na União Soviética. 
Raramente o Cinema atingiu o nível artístico e documental como nessa época.  


VELIKII GRAJDANINE (Um Grande Cidadão) (1ªparte – 1937, 2ªparte – 1939), de Friederich Ermler (URSS) ***** (5)

Trata-se de uma obra, magnífica, em duas partes, num total de 4 horas e 45 minutos, sobre os anos dificílimos de construção do Socialismo, na União Soviética.

Como obra sobre um período revolucionário, referindo-se aos anos de 1930-35, em que os explorados estão no poder, não estará nunca datada, porque descreve as dificuldades, as divergências, as traições, as sabotagens, em tal período. Algumas cenas, apesar de terem quase com um século, parecem-nos actuais (em 2007), em termos de comportamentos.

O filme descreve a vida e o assassinato do dirigente comunista Serge Kirov (sob o nome de Chakov, admiravelmente interpretado por N.Bogolioubov), de acordo com a versão oficial na época, a qual viria a ser mais tarde contestada. 

Mas para além disso, é a maneira admirável como aquele grande cineasta soviético filma as personagens, muitas vezes em grandes planos, conseguindo dar-nos o seu retrato psicológico, que tornam o filme perfeitamente actual em termos de linguagem. Filme principalmente de diálogos intensos, tem no entanto meia dúzia de exteriores magníficos – os plenários na fábrica, as reuniões com os operários e população, as manifestações, as obras da construção do canal.

A figura da Mulher é fortemente exaltada, equiparando-a ao Homem, no trabalho, na direcção da fábrica e no partido. Uma das cenas mais fortes do filme é o discurso da mãe de Chakov no plenário, mas há mais meia dúzia de figuras femininas admiráveis, que sobressaem na obra.

O assassinato de Chakov, é dado elipticamente, como em geral o fazem os grandes mestres, adquirindo enorme força.

Mas um dos aspectos que mais me surpreendeu foi a maneira como o ideal comunista, no comportamento, nos é dado, com muita inteligência, sem nunca recorrer a frases feitas, mas antes ao que acontece na prática, perante os acontecimentos favoráveis ou desfavoráveis.

Curiosamente nada disto é referido na folha respectiva da Cinemateca, num texto longo, repleto de provocação e aleivosia, que quase se limita a debitar um ideário anti-comunista, ou não tivesse o crítico evidentes simpatias pelo outro extremo do espectro político (confrontar com outras críticas do mesmo, nos jornais).

Lamentáveis também os erros ortográficos (e não só) inacreditáveis (“houveram”, por exemplo) da legendagem electrónica. Feita aonde? Na própria Cinemateca? 

Terminada a projecção é inevitável que nos interroguemos, se não foi uma formidável proeza, única na história da humanidade, o poder dos explorados, dos oprimidos, conseguir resistir durante tantas décadas, perante a força do inimigo, que recorreu a todos os meios para o minar, para o sabotar?

Admirável obra, de um período fecundo para a arte cinematográfica – o das gerações que fizeram a Revolução de Outubro.

(visto na Cinemateca Portuguesa, em Mar-2007)




sábado, 4 de março de 2017

O VENDEDOR (Forushande), de Asghar Farhadi



No rescaldo dos anunciados óscares fui ver uma obra do cineasta iraniano, Asghar Farhadi, "FORUSHANDE" (O Vendedor), aliás já estreada no final do ano passado nos ecrãs da nossa cidade.

E foi uma magnífica surpresa este belo filme iraniano, com um final de grande intensidade dramática, que tem como pano de fundo a representação da famosa peça "THE SALESMAN" (A Morte de um Caixeiro Viajante), de um dos maiores dramaturgos norte-americanos, que muito admiramos, Arthur Miller, já que os dois protagonistas são o casal de actores que representam os principais papéis da peça de Miller num palco de Teerão. E aqui não deixámos de lembrar o nosso grande Rogério Paulo, no mesmo papel nos palcos portugueses. 

Magnificamente realizado e desempenhado, tendo como tema a vingança, mas num ponto de vista de quem, por questões de formação e ideologia (trata-se de um professor que se percebe ser culto e humanista, pelo menos), se procura dominar, num crescendo de emoções que mantém os espectadores amarrados aos seus lugares, e é por isso que tem sido tão premiado: ultimamente com o óscar para o melhor filme em língua estrangeira, mas já o fora em Cannes e Munique, por exemplo.


Obviamente que sendo uma obra realizada por alguém que é crítico ao actual poder político no seu país - o da hierarquia religiosa dominante, o filme não deixa de apontar o dedo à censura existente, sempre sob o pretexto da moral - aos diálogos da peça de Miller, aos livros considerados pouco recomendáveis para entregar aos jovens para ler na escola. 

Sabendo-se como o imperialismo cobiça há longos anos voltar a dominar aquele grande país e principalmente as suas matérias primas (petróleo), que o seu último político progressista, Mohammed Mosaddeq, havia nacionalizado em meados do Século XX, razão porque CIA e a política britânica organizaram poucos anos depois um golpe de estado que devolveu o poder absoluto ao Xá. 

A corrupção da monarquia veio no entanto a criar condições para a revolução que deu o poder actual aos religiosos, o que não deixou de ser um revés para a política norte-americana, que através da CIA, tenta desde então recuperar a influência perdida.

No presente, complexo e perigoso, contexto internacional, o regime iraniano, visto do ponto da correlação das forças anti-imperialistas versus pró-imperialistas (como a UE, por exemplo), apresenta aspectos positivos e importantes. Talvez seja por isso também, que as grandes obras do cinema iraniano actual, embora não escondam a natureza do regime político, não o fazem com grande violência crítica.


(comentário já publicado no facebook)

domingo, 19 de fevereiro de 2017

SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO - pelo Intervalo Grupo de Teatro




SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO

O Intervalo Grupo de Teatro voltou à grande comédia clássica, depois de dois grandes espectáculos dramáticos, extraordinários: "Ratos e Homens" e "12 Homens em Fúria", que ficam entre o melhor que vimos nas últimas temporadas em todos os palcos. 

Depois de Molière, de Corneille e de outros, chega agora, de novo, uns anos depois, a adaptação do famoso "Um Sonho de uma Noite de Verão" (A Midnight Summer's Dream), de William Shakespeare.
E é excelente, este espectáculo que adapta uma das mais inocentes peças do genial dramaturgo inglês, ou talvez não, em que os maus sentimentos estão praticamente ausentes, tirando uns ciúmes, umas vilanias menores, um pai prepotente e principalmente as confusões que os "deuses" armam para delas tirar proveito... 

Manuel Jerónimo, actor e encenador que já conhecíamos de trabalhos anteriores, magníficos, adaptou o texto e encenou-o. 

O resultado, volto a afirmá-lo, é encantatório, fazendo-nos por vezes sorrir, rir e até rir muito, com as peripécias da acção. 

E tudo acaba em bem, com excepção da peça dentro da peça, com que termina a comédia, tal como no original, e que é por vezes irresistivelmente cómica.

A direcção de actores é de novo brilhante, ou não fosse essa uma marca da casa.

Parabéns e uma forte recomendação para não perderem, aos amigos deste mero espectador, um daqueles que nada sabe do que se passa nos bastidores mas apenas do resultado em palco e esse é, em sua opinião, muito bom!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

TRILOGIA DE MAXIM, de Grigori Kozintsev e Leonid Tranberg



No ano em que se comemora o Centenário da Revolução de Outubro (1917 - 2017) deixo uma pequena nota, de 2006, sobre um dos mais famosos filmes sobre a Revolução e uma obra-prima absoluta da Sétima Arte, talvez pouco vista dado as cinematecas estarem noutras mãos...

TRILOGIA DE MAXIM, de Grigori Kozintsev e Leonid Trauberg, URSS (1935-1938), ***** (5)

Depois de ter visto a obra-prima de Satyajit Ray “Trilogia de Apu”, agora outra trilogia famosa, constituída pelos filmes “A Juventude de Maxim”, “O Regresso de Maxim” e “O Distrito de Vyborg”, todos com música do grande compositor soviético Dmitri Schostakovich, de quem se comemora este ano o centenário do nascimento (1906).

É uma das mais célebres obras do Cinema Soviético, dos anos inesquecíveis da construção do Socialismo. 

Obra-prima que poucas possibilidades temos hoje, e neste país, de ver… 

Exibida, em sessões separadas, no ciclo do Cinema Clássico Soviético, na Cinemateca Portuguesa, em 1987, que deu origem ao que talvez seja o melhor catálogo de sempre editado pela mesma Cinemateca, pelo menos no grafismo (obviamente esgotadíssimo…). 

Originários da antiga Rússia, hoje Ucrânia, de Kiev - Kosintsev (1905-1973) e de Odessa - Trauberg (1902-1990), os dois cineastas fizeram juntos parte dos movimentos de vanguarda do cinema, nos anos 20 e 30, na URSS.

Sobre a trilogia, diz o referido catálogo da Cinemateca, “há neles (nos filmes da trilogia) uma intrínseca excentricidade, na concepção geral, no tratamento das sequências capitais, na composição interpretativa, que é o contraponto feliz a um argumento muito elaborado, minucioso, didáctico e politicamente comprometido”.

“Tão exemplar (o filme) como o seu herói”, Jean-Marie Carzou, cineasta francês, no Dicionário dos Filmes, da Larousse.

“Maxime é um dos filmes mais importantes realizados na URSS (e no mundo), nos anos 30” no famoso e indispensável Dicionário dos Filmes, de Georges Sadoul.

Esta exibição de agora, no CCB, constituiu um verdadeiro “tour de force”, com a projecção consecutiva dos três filmes, durante quase seis horas, com curtos intervalos entre eles. 

As cópias no entanto apresentavam algumas deficiências, em especial a última, com o som em estado menos bom e legendada em francês, mas afinal com melhor legendagem (mais completa) que a electrónica em português dos dois primeiros filmes. Mas apesar de tudo isso, valeu bem a pena a visão desta obra-prima, do cinema em geral, e do Cinema Revolucionário em particular, abrangendo a história de um jovem operário russo entre 1910 a 1919, participante activo da Revolução Socialista de Outubro, um operário que dadas as suas qualidades é encarregue pelo partido, logo a seguir à Revolução, da gestão do Banco da Rússia, tarefa que desempenha como sempre com muita inteligência, num período particularmente difícil para o novo poder, com as contínuas sabotagens dos anteriores dirigentes, afectos ao czarismo e à direita.

Há na obra sequências memoráveis, entre quais o desfile dos operários com o cadáver do camarada morto na fábrica, devido às péssimas condições de trabalho, contra as quais os trabalhadores protestavam em vão, e subsequente violento reencontro com as forças policiais, que reprimem brutalmente o movimento popular; as orgias da dissoluta sociedade czarista; as primeiras e difíceis reuniões de Maxim com os quadros do Banco e as tempestuosas reuniões na Assembleia Legislativa, antes e logo a seguir ao eclodir da Revolução (e por vezes a caracterização política dos intervenientes é tão perfeita, que pareceu-me ver a actualidade); e, talvez acima de todas, o julgamento popular dos envolvidos nas sabotagens, saques e pilhagens, nos primeiros tempos do Poder Soviético, também pelo seu enorme significado político, mostrando a inteligência e sensibilidade com que os dirigentes comunistas que constituíam o tribunal, souberam lidar com as massas, deixando-as exprimir-se, mas explicando-lhes na altura própria, em que casos se deve ser inflexível e quando se deve perdoar. 

Admirável obra que o tempo não consegue desvanecer, continuando a ver-se com enorme emoção.




MÚSICA

Um concerto integrado na comemoração do centenário de Dimitri Schostakovich, dirigido por Pedro Moreira, com a Big Band do Hot Club de Portugal, mais músicos da O.M.L., e convidados ***** (5)

Os melómanos, habituados aos concertos requintados e organizados ao pormenor, provavelmente não apareceram (embora o auditório principal do CBB estivesse quase esgotado…) 

Confesso o enorme prazer sentido pelas 3 horas que passei no CCB, a assistir a um absolutamente original concerto, de música erudita para jazz e jazz puro (Duke Ellington), através de peças excepcionais escritas para jazz, de Schostakovich, Stravinsky e Bernstein! Logo três dos compositores de que mais gosto! Entre as peças a fantástica “Lost” Suite para Orquestra de Jazz (agora intitulada nº2), de Schostakovich! 

Com um palco, também ele próprio, mudando de aspecto a cada peça tocada, com mais ou menos músicos, e com a configuração da orquestra e dos seus instrumentos e lugares continuamente a mudar ao ritmo das necessidades musicais, foi qualquer coisa de único, parecendo tudo quase um enorme improviso!